quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Até a Maria gostou de "Retratos na Umbanda".

O vizinho adorou, a mulher que leva o cachorro pra praça disse que achou inovativo.

O padeiro ainda não teve tempo de ler, o açougueiro não gosta de literatura, o vendedor de livros velhos disse que a Umbanda não é a praia dele.

Mas a Maria gostou, o vizinhou adorou, o padeiro vai ler e o diretor de cinema disse que pode dar até um filme!

O padeiro, porém, agora disse que não leu e não vai ler. 
E uma aluna evangélica, quando eu falei do livro, abandonou a sala.
Aí, a dona do curso veio até mim, pediu explicações e eu mostrei "Retratos na Umbanda".
O que é que é isso?, perguntou.

"Uma ficção, não é um livro religioso, fiz várias entrevistas, até faço parte de um Centro..." 
A mulher me encarou. Eu a encarei. 
Ficamos paralisados. 
Estátuas.
Eu não consigo mexer. 
Há três dias estou assim. Imóvel encarando uma mulher.
Mas ela foi embora. Deixou a fotografia e os certificados acadêmicos, na parede.

Quem puder, por favor, me tire daqui!


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A maioria dos que leram "Retratos na Umbanda" e gostaram disseram que é um romance que induz a "pensar", porque os personagens são complexos, às vezes contraditórios, apesar de fazer parte de um Centro de Umbanda e de acreditar em Deus. 

Curtindo a história você acaba conhecendo a Umbanda quase sem querer, disseram outros. 

Estes gostaram do lado, digamos assim, "antropológico" do livro.

Outros disseram que é uma leitura agradável, apesar do grande numero de personagens que podem complicar um pouco no começo.

As primeiras trinta páginas, de fato, são interlocutórias. O leitor entende exatamente quem é quem a partir do segundo capitulo.  

Eu estou gostando do retorno, principalmente do comentário de uma médium do Centro que disse: "É um livro cheio de verdades!" e da opinião de um jornaleiro de Copacabana, que decidiu vender "Retratos na Umbanda" na sua banca e me contou a história dos mendigos que moram nos becos e nas encruzilhadas entre a Toneleiro, Anita Garibaldi e o Bairro Peixoto. 


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O autor de "Retratos na Umbanda" com 17 anos fundou um conjunto punk rock (mais rock do que punk), em Milão.

Formou-se em Letras Modernas com 27 anos (durante a faculdade trabalhou como garçom, operário, professor e trancou a matricula duas vezes porque decidiu dedicar seis meses à leitura de Marcel Proust e mais três ao Ulisses de James Joyce - autores ausentes do curriculum da Statale de Milão). 

Deixou seu país com 28 anos.

No Brasil trabalhou numa ONG na favela da Rocinha. A verdadeira formação desse sujeito foi entre os becos, as vielas, ajudando crianças carentes ou tentando ajudar crianças carentes. 
Ele também dava aulas de italiano para os ricos de Ipanema. 

Um dia ele passou a manhã numa casa na Roupa Suja na Rocinha que não tinha o vaso sanitário, mas um buraco que dava diretamente na vala de esgoto; a tarde ele foi trabalhar num apartamento de um conselheiro de um banco brasileiro, na Vieira Souto. Entre mordomo, serviçais e luvas brancas. 

As contradições de Rio de Janeiro mexeram com ele numa forma que ele não entendeu de imediato. 

Mas hoje ele sabe o que aconteceu. E sabe também que não vai se livrar desta cidade, nunca. 

Ontem dei a primeira aula do curso "A idade de ouro da 

literatura italiana" e descobri mais uma vez como é bonito e 

diferente ler a Divina Comédia, falar do 1.300... Sinto-me 

muito mais seguro perto da Divina Comédia e no 1.300 do 

que em pleno 2.013, em que se você quer ser um escritor 

ou qualquer outra coisa, precisa cuidar não da tua alma, da 

tua preparação, mas... da tua imagem!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Duas coisas:

-  para escrever "Retratos na Umbanda" inspirei-me em "Tropa de Elite", o filme. Fiz uma atenta pesquisa e utilizei o material recolhido para criar uma obra de ficção. Ninguém no Brasil, até "Retratos na Umbanda", apresentou essa religião índio e afro descendente de uma forma tão "realística". "Retratos na Umbanda" não é um documentário, mas, como "Tropa de Elite", mostra a realidade como ela é.

- começando a escrever aquelas notas biográficas, tive sonhos horríveis que, noite após noite, estão desvendando à minha consciência o que aconteceu na creche trinta e cinco anos atrás. Pela primeira vez, durante a noite passada, eu "lembrei", em sonho, a sensação que tive quando criança. A angustia, a dor, o enorme sentimento de injustiça e reparei que as coisas não aconteceram exatamente na forma em que eu acreditava.



sábado, 3 de agosto de 2013

Breve biografia do Autor (quarta parte)

Aurélio era um homem bom, de calça cinza e sandálias. Cozinhava peixe. O rosto ficava todo vermelho por causa da fumaça. Depois a família inteira comia junto. Ele era um cara sério, só ria quando falava das possíveis namoradas do neto, autor de "Retratos na Umbanda". Amava o neto de verdade. Dizia que um dia tornaria-se alguém. O autor beijava-lhe o rosto enrugado, o pescoço dele tinha os sinais de um cordão de ouro que o autor herdou e perdeu, bêbado, de noite, em Milão. Na verdade, ele não perdeu. Alguém roubou. 
Pierina era a esposa de Aurelio. Foi o grande amor do autor. Mulher trabalhadeira. Boa, simples. Sempre falou em dialeto, até os últimos dias de vida. Ela adorava cozinhar, era uma artista da cozinha. Preparava a massa um dia antes, depois deixava repousar em cima dos armários onde a temperatura estava mais fresca. Às cinco da manhã pegava a massa e cortava. Começava a preparar o molho às sete e a família comia às treze. Suas especialidades eram os cannelloni, as abobrinhas fritas, as lasanhas. Enquanto a família almoçava, ela não ficava parada, servia a mesa. E não costumava comer muito. Mas gostava de doce. Aguardava o fim do almoço, pegava o recheado, comia um, dois. O autor olhava-a e ela, com a cara de uma menina de três anos, dizia: "Eu gosto muito...".   








quarta-feira, 31 de julho de 2013

Breve biografia do Autor (terceira parte)

O Autor com nove anos escreveu um conto, junto com os primos. Havia muitos assassinatos, era a história de uma família inglesa aristocrata (a prima do Autor estudava literatura inglesa); um dos filhos, tal Andrew, era maluco. Todo mundo achava ele engraçadinho e inofensivo, mas Andrew tinha um esconderijo segredo em baixo da casa dos pais, nos soterrâneos, cheio de armas, de camas com cintos para acorrentar as pessoas e instrumentos para a tortura. Aqui ele levava suas vitimas, seduzidas pelo ar sonhador e doidinho. Violentava, matava e nunca ficava satisfeito. 
A única parte boa era o começo, escrito pela prima do Autor. A filha mais nova da família subindo a escadaria, cheia de jóias, numa sala enorme, em baixo de um lampadário gigante. 
O Autor, que tinha e tem um pensamento fixo, obsessivo, copiou o texto em algumas folhas de papel, em letras capitais. O primo desenhou a capa. Outro primo criou uma música para o lançamento, que aconteceu no jardim da casa dos avós, na frente dos pais, dos tios, do Aurelio e da Pierina.  
O Autor pediu pro pai dele fotocopiar o conto que tornou-se uma espécie de livrinho. Ele o distribuiu entre os colegas da turma da escola. Ninguém leu, com exceção da professora que ficou surpresa e disse para os pais do Autor que o filho deles tinha talento. 

Breve biografia do Autor (segunda parte)

O Autor de "Retratos na Umbanda" sofreu um trauma na creche, mas não lembra bem. Só lembra dele, de um amiga e um amigo nus, num quarto escuro e a professora gritando. Depois teve uma punição. 
O Autor odiava a creche. Odiava ter que dormir todas as tardes, porque ele não tinha sono. Odiava escovar os dentes juntos com os demais. Odiava fazer as mesmas coisas que todo mundo fazia. Quando, anos mais tarde, visitou o campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau (agora um museu) , de repente lembrou da creche: os prisioneiros que repetiam os mesmos gestos juntos lembraram-lhe ele e os seus coleguinhas... Por isso, a mãe do Autor tinha medo dele rejeitar a escola primaria. Ao contrário, quando o Autor descobriu as palavras sentiu-se muito bem. Foi uma espécie de milagre, um amor a primeira vista. 
Começou logo a ler livros. 
Com nove anos escreveu, juntos com os dois primos e a prima, na casa de Pesaro dos avós paternos, um conto de dez páginas e quinze assassinatos... O Autor, porém, agora gostaria de fazer uma pergunta para a professora da creche que hoje deve ter uns sessenta anos: "Professora, o que é que aconteceu naquele quarto? Por que o Autor e seus amiguinhos foram punidos? Por que a senhora deixou os três no quarto escuro a pensar?".

Breve biografia do Autor (primeira parte)

O Autor de "Retratos na Umbanda" nasce em Milão, no Bairro de Porta Romana, no dia 9 de Fevereiro de 1975. Hoje quase não tem cabelo e talvez seja por isso que todo mundo acha que ele tem dez anos a mais de sua real idade. Por isso quando lhe perguntam "Quantos anos você tem?", ele responde: "Cinquenta" e recebe o elogio do interlocutor: "Poxa! Você tá bem conservado!". Cansou, o Autor, de encontrar pessoas que acham ele mais velho de quanto, de fato, é.
Mas isso começou logo na escola primaria. Com cinco anos, todo mundo achava que ele tivesse sete. Com sete, dez. Com dez, quatorze. Com quatorze, dezoito... E se isso foi "adorável" quando criança, já com vinte anos e a perda dos cabelos tornou-se meio constrangedor. Pior ainda, depois dos trinta e seis e das úlceras... Por isso, ele tem cinquenta anos, apesar de estar com trinta e oito. 

Está muito bem conservado. 




segunda-feira, 29 de julho de 2013

Estou procurando uma editora e uma distribuição para o romance "Retratos na Umbanda". Segue um pequeno resumo - introdução. Quem estiver interessado escreva, por favor, para matteogennari@gmail.com

"O narrador acompanha a vida dos médiuns de um Centro. Eles estão preparando a festa de Exu. Por isso encontram-se, na terça; o Pai de Santo dá uma palestra e os fiéis o escutam, cada um com sua porção de fé, ilusão e dúvidas. O Pai de Santo também está preocupado, porque ainda deve trabalhar duro para pagar as contas... O protagonista é ele, Pai Francisco, que anda sonhando com si mesmo, de roupa comum, pedindo para si mesmo, de roupa branca ritualística, para fazer uma macumba que o ajude a mudar de vida. E isso vai contra os princípios, contra a sua própria moral. Mas ele está insatisfeito. Dividido entre as necessidades espirituais e materiais.
Temos Enzo e Sofia, Pai Pequeno e Mãe Pequena do Terreiro. Ele vem da favela, quando criança viu um gárgula na janela do vizinho e a mãe o levou para a Igreja Universal; Sofia é de Copacabana e lembra com saudade do pai, grande namorador que, ainda casado, ficou noivo de outra...
O leitor passa de um médium a outro, acompanha seus percursos e caminhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, até a festa de Exu. O ritual, a “gira” em que Enzo não será mais o Enzo, mas Seu Meia Noite, Sofia incorporará Maria Padilha da Porta do Cabaré e Francisco, o Exu Sete Encruzilhadas, guardião do Terreiro. A festa prevê churrasco, a espiritualidade está à flor da pele. Revelações, reflexões que envolvem Zé, velho baiano que não incorpora e repreende todos os filhos de santo, que nunca fazem as coisas direito, e Antônio, o último a ingressar no Centro; descendente de italianos, morador do Morro do Urubu e pintor, Antônio recebeu das entidades a tarefa de desenhar, representar o que vê e sente, durante as sessões".

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quando a Macumba Boa chega na Itália...

http://www.youtube.com/watch?v=DiyKoYfgh_w


http://www.youtube.com/watch?v=izYJnUJl7mE

"Retratos na Umbanda" está...

- na Livraria Bolivar, na Rua Bolivar, em Copacabana, perto do cinema Roxy. O dono, seu Egídio, vem de Paola, Cosenza, Italia. Para adquirir o livro, falem com Johnny ou com Carla.

- na banca de jornal entre a Barata Ribeiro e a Santa Clara, em Copacabana. Eu morava na frente, e acordava todos os dias às 6 ouvindo o Davi, porteiro do prédio ao lado, conversar com Johnny (o mesmo da livraria), sobre o Flamengo... Obina é melhor que Etô! Obina é melhor que Etô!

- na loja de artigos religiosos na esquina entre a Tonelero e a Santa Clara. Falem com Luciano, um preto, forte, com cara de macumbeiro.  

-  na loja de artigos religiosos na rua Magalhães Couto, no Méier, perto do restaurante do famoso Mestre Cuca, por alguns Pai Puica, homem da várias identidades e inúmeras incarnações. 

- e, talvez (irei hoje perguntar) no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana, na Rua Barata Ribeiro, altura Siqueira Campos; o dono, Mauricio, é muito educado, mas não gosta da Bahia e não tem nenhum interesse nas religiões afro descendentes... veremos, então!

terça-feira, 23 de julho de 2013

como adquirir uma cópia

O batizado se foi, se foi a apresentação. Senti uma energia boa. 

Estou organizando a venda do romance como e book.

Para ter o livro de papel, em sua casa, escreva para matteogennari@gmail.com

Entrega pelo correio.

Obrigado a todos que participaram da festa na minha casa.




sexta-feira, 19 de julho de 2013

O romance está à venda. Quem quiser uma cópia, não tenha medo do correio e dos emails. Escreva e receberá o livro em casa. 
Por enquanto, vendi trinta exemplares no trabalho, nos cursos, no terreiro.
Chegaram os primeiros feed backs.
Quem gosta de espiritismo, umbanda, quem tem um lado místico, quem acredita nos sonhos, nas coincidências que não são coincidências, então - esse tipo de leitor pode gostar do meu romance. 
Quem não gosta deste mundo escondido, vai me dizer que o livro foi bem escrito, mas não o preenche como leitor.

Desde a saída do romance, o nível de ansiedade cresceu enormemente. As esperanças e o medo da frustração lutam dentro de mim como num ringue de boxe.
E posso reagir no único modo que conheço: escrever outro romance (ou talvez uma música, mas a música dura menos, os efeitos são menos fortes). 
Preciso ocupar minha cabeça com outras histórias para evitar de anegar no labirinto da ansiedade, do medo e da angustia. 
Nasci assim. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ficha técnica

O português de "Retratos na Umbanda" foi corrigido por André Conforte, professor da UERJ. 
As primeiras 200 cópias foram impressas graças ao contributo de Rogério Takayanagi e Sidney Baptista Coelho da Rocha. 
O livro foi escrito no Rio de Janeiro em, aproximadamente, quinze meses. 

Escrevi num café na Barra da Tijuca, diretamente em português, teclando num pequeno computador.
Este é o quarto romance que escrevo na mesma mesa, no mesmo café.



domingo, 14 de julho de 2013

ficção

Esta é uma obra de ficção. Utilizei vários contos, entrevistas, escutei muito, mas muito imaginei. 
Espero que ninguém sinta-se magoado por alguma descrição, por espelhar-se num personagem e não gostar de um detalhe pensando que a história podia ter sido diferente. 
A responsabilidade do texto é minha e só minha; tem sim a vivência num centro espírita, mas eu criei outro centro espírita imaginário, em que o pai de santo é Pai Francisco, o pai pequeno é Enzo,  a mãe pequena Sofia. Claro, os médiuns que me contaram suas histórias agora estão vendo-as no papel, mas podem também bem entender que eu usei os contos deles com fins narrativos. Para criar minha própria história, em relação a que chamo de "emoção da Umbanda". 
Peço paciência e compreensão a quem não gostou deste processo. 
Se magoei alguém, peço desculpa. 

sábado, 13 de julho de 2013

A ideia

A ideia deste romance veio durante um jogo de búzios. O Pai Paulo viu que tenho talento literário e pediu para eu escrever a biografia dele. Comecei a entrevistá-lo, no Méier, e acabei conhecendo sua fé, suas esperanças e desilusões. Mas logo entendi que não dava para escrever a biografia. Ele não era Che Guevara e a vida dele, apesar dos altos e baixos, sempre trilhou no caminho da Umbanda. As verdadeiras aventuras do Paulo foram espirituais, mas a biografia seria realística. Por isso, pedi para conhecer os outros médiuns do Centro Espírita, fiz outras entrevistas e acabei envolvendo-me com a Umbanda. De pesquisador, tornei-me um seguidor, de seguidor, um médium do Centro. Aí, entendi que o que eu queria era contar mesmo a "emoção" da Umbanda, tão brasileira e tão internacional ao mesmo tempo. E acho que se o meu romance tem algum merecimento, é por causa desta visão, deste olhar sobre o ser humano, suas crenças e desilusões, seus medos e suas conquistas, dentro de um mundo em que a comunicação com os espíritos torna-se possível, nos compromissos semanais do Centro.

terça-feira, 2 de julho de 2013

A primeira página do romance



Pai Francisco estava chateado com os médiuns, levavam a sério só o momento da incorporação. E o resto?
Pisou no segundo degrau da escada que o levaria ao térreo e depois ao estacionamento. O carro o esperava empoeirado, “Quando terei tempo de lavar ele?”.
O elevador não funcionava e isso acrescentou a sensação de fadiga e de impaciência. Queria se ocupar só do centro, cuidar do santo, das obrigações, mas... e o dinheiro? Quem lhe daria? Devia trabalhar, essa era a pura verdade. E não teria aposentadoria, isto é, poderia se aposentar com um salário mínimo. E a esposa? As filhas? As enteadas? Pelo menos ir ao parque no domingo, comer sanduíches sentados na grama, rezar em silêncio... Entrou no estacionamento e depois no carro. Tomou a direção do Centro e pensou que na manhã seguinte deveria levantar cedo para comprar a carne para a festa de Exu, sábado era dia de Exu e o intermediário, o semideus, gostava de churrasco. Isso significava uma passada no açougue, depois devia organizar a quitanda, averiguar, não podia confiar em ninguém. Quem verificaria se a alface estava boa? Quem contaria as caixas de leite? O entregador só aceitava reclamações na hora.
            Ele sabia que os médiuns participariam em quantidade mínima de sua palestra. De trinta, dez no máximo viriam.
            Estacionou em frente ao portão azul. Vestia bermuda marrom, uma camisa branca listrada, sandálias marrons. No pescoço um colar de ouro com uma pequena faca e uma figa. Tinha cabelos escuros, o rosto de um egípcio, o crânio africano era a parte evidente de sua fisionomia junto com os olhos profundos e uma espécie de brilho divertido, sarcástico, como o de um palhaço ou de um demônio. Ou de um santo. Os olhos de Francisco tinham presenciado pequenos e grandes milagres, esta era a impressão que davam e que deram ao Zé, que lhe abriu a porta do Centro Espírita Filhos de Xangô. 

sábado, 29 de junho de 2013

Notícias sobre o romance “Retratos na Umbanda” e seu Autor


Sei que parece difícil, até singular, imaginar que um europeu no Brasil possa abraçar uma religião de origem indígena e africana, mas isso acontece. Mesmo assim, o livro que eu quero apresentar não é uma obra religiosa, mas de pura e simples ficção. Só que as personagens e a ambientação estão imersos no mundo da Umbanda. O Autor acompanha a vida dos médiuns de um Centro. Eles estão preparando a festa de Exu. Por isso encontram-se, na terça; o Pai de Santo dá uma palestra e os fiéis o escutam, cada um com sua porção de fé, ilusão e dúvidas. O Pai de Santo também está preocupado, porque ainda deve trabalhar duro para pagar as contas... O protagonista é ele, Pai Francisco, que anda sonhando com si mesmo, de roupa comum, pedindo para si mesmo, de roupa branca ritualística, para fazer uma macumba que o ajude a mudar de vida. E isso vai contra os princípios, contra a sua própria moral. Mas ele está insatisfeito. Dividido entre as necessidades espirituais e materiais.
Temos Enzo e Sofia, Pai Pequeno e Mãe Pequena do Terreiro. Ele vem da favela, quando criança viu um gárgula na janela do vizinho e a mãe o levou para a Igreja Universal; Sofia é de Copacabana e lembra com saudade do pai, grande namorador que, ainda casado, ficou noivo de outra...
O leitor passa de um médium a outro, acompanha seus percursos e caminhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, até a festa de Exu. O ritual, a “gira” em que Enzo não será mais o Enzo, mas Seu Meia Noite, Sofia incorporará Maria Padilha da Porta do Cabaré e Francisco, o Exu Sete Encruzilhadas, guardião do Terreiro. A festa prevê churrasco, a espiritualidade está à flor da pele. Revelações, reflexões que envolvem Zé, velho baiano que não incorpora e repreende todos os filhos de santo, que nunca fazem as coisas direito, e Antônio, o último a ingressar no Centro; descendente de italianos, morador do Morro do Urubu e pintor, Antônio recebeu das entidades a tarefa de desenhar, representar o que vê e sente, durante as sessões.
O romance será lançado nestes dias. Publicação independente. À venda pelo internet, entregue via correio. O Autor, como disse, sou eu.
Matteo Gennari, 38 anos, nascido num bairro na periferia sul de Milão. Morador do Rio de Janeiro há dez anos.
O que é que me trouxe ao Brasil? Difícil explicar. Digamos: o instinto. Durante uma viagem de lazer, amei Salvador da Bahia e Rio de Janeiro. Decidi tentar a sorte. Formado em Letras em Milão, criado num bairro tipo Barra da Tijuca, depois de três meses no Rio, era morador da favela da Rocinha. Trabalhei com crianças carentes, visitei a Baixada atrás de missionários italianos.
Apaixonei-me por uma carioca que me largou depois de um mês. Eu era o quinto ou sexto amante dela, o mais pobre. O marido, um americano da televisão. Lembro-me de mim, caminhando pelas ruas de Copacabana perguntando-me o que é que estava fazendo aqui. E, dentro, tanta coragem e uma vontade imensa de ficar.
Encontrei minha esposa na Rocinha, uma baiana. Adotei os dois filhos dela e tivemos uma filha juntos. Hoje somos moradores do Bairro Peixoto em Copacabana. Hoje, ensino italiano numa empresa italiana.  
A baiana, que diz ser evangélica, apresentou-me ao marido da melhor amiga dela. À noite, o sujeito incorporou um Preto Velho que pediu para falar comigo. Assim começou minha relação com a Umbanda. 
Uma vez, outro preto velho, Seu Cipriano das Encruzilhadas, me disse: “Filho, cê pensou porque cê veio pra esse país? Tá no sangue, filho...”. Ele disse que a Umbanda está no meu sangue, no sangue da minha esposa e da nossa filha, que já deu sinais mediúnicos.
Eu não sei dizer se o que estou lhe contando é ilusão ou verdade. Mas sei que sempre gostei de escrever.  
Tenho duas trilogias na cabeça e um sétimo livro.
A primeira, em italiano, vê: “Morti, amanti e funerali”, “Rio Negra” e “WWWWWWWWW”. “Trilogia del Passato”, costumo chamá-la.  O primeiro livro o publiquei em 2011, na Itália. Os outros dois estão prontos, no meu computador.  
A segunda, em português, vê: “Retratos na Umbanda”, já disponível, “O feiticeiro do Méier” e “As incríveis aventuras de Zé Pelintra”. Intitula-se “Trilogia da Umbanda”. “O feiticeiro do Méier” e “As incríveis aventuras de Zé Pelintra”, no momento, só vivem em minha fantasia.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Obra de ficção com uma singular ambientação: um Centro Umbanda.


"Uma obra de ficção ambientada num centro de Umbanda com suas magias, paixões e medos - A vida real dos médiuns, sua fé, seus esforços - O autor sou eu: um italiano umbandista, morador do Rio de Janeiro".