Sei que parece difícil,
até singular, imaginar que um europeu no Brasil possa abraçar uma religião de
origem indígena e africana, mas isso acontece. Mesmo assim, o livro que eu
quero apresentar não é uma obra religiosa, mas de pura e simples ficção. Só que
as personagens e a ambientação estão imersos no mundo da Umbanda. O Autor acompanha
a vida dos médiuns de um Centro. Eles estão preparando a festa de Exu. Por isso
encontram-se, na terça; o Pai de Santo dá uma palestra e os fiéis o escutam,
cada um com sua porção de fé, ilusão e dúvidas. O Pai de Santo também está
preocupado, porque ainda deve trabalhar duro para pagar as contas... O
protagonista é ele, Pai Francisco, que anda sonhando com si mesmo, de roupa
comum, pedindo para si mesmo, de roupa branca ritualística, para fazer uma
macumba que o ajude a mudar de vida. E isso vai contra os princípios, contra a
sua própria moral. Mas ele está insatisfeito. Dividido entre as necessidades
espirituais e materiais.
Temos Enzo e Sofia, Pai
Pequeno e Mãe Pequena do Terreiro. Ele vem da favela, quando criança viu um gárgula na janela do vizinho e a mãe o levou para a Igreja Universal; Sofia é
de Copacabana e lembra com saudade do pai, grande namorador que, ainda casado,
ficou noivo de outra...
O leitor passa de um médium
a outro, acompanha seus percursos e caminhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, até
a festa de Exu. O ritual, a “gira” em que Enzo não será mais o Enzo, mas Seu
Meia Noite, Sofia incorporará Maria Padilha da Porta do Cabaré e Francisco, o
Exu Sete Encruzilhadas, guardião do Terreiro. A festa prevê churrasco, a espiritualidade
está à flor da pele. Revelações, reflexões que envolvem Zé, velho baiano que
não incorpora e repreende todos os filhos de santo, que nunca fazem as coisas
direito, e Antônio, o último a ingressar no Centro; descendente de italianos,
morador do Morro do Urubu e pintor, Antônio recebeu das entidades a tarefa de
desenhar, representar o que vê e sente, durante as sessões.
O romance será lançado
nestes dias. Publicação independente. À venda pelo internet, entregue via
correio. O Autor, como disse, sou eu.
Matteo Gennari, 38
anos, nascido num bairro na periferia sul de Milão. Morador do Rio de Janeiro
há dez anos.
O que é que me trouxe
ao Brasil? Difícil explicar. Digamos: o instinto. Durante uma viagem de lazer,
amei Salvador da Bahia e Rio de Janeiro. Decidi tentar a sorte. Formado em
Letras em Milão, criado num bairro tipo Barra da Tijuca, depois de três meses
no Rio, era morador da favela da Rocinha. Trabalhei com crianças carentes, visitei a Baixada atrás de missionários italianos.
Apaixonei-me por uma
carioca que me largou depois de um mês. Eu era o quinto ou sexto amante dela, o
mais pobre. O marido, um americano da televisão. Lembro-me de mim, caminhando
pelas ruas de Copacabana perguntando-me o que é que estava fazendo aqui. E,
dentro, tanta coragem e uma vontade imensa de ficar.
Encontrei minha esposa
na Rocinha, uma baiana. Adotei os dois filhos dela e tivemos uma filha juntos.
Hoje somos moradores do Bairro Peixoto em Copacabana. Hoje, ensino italiano numa empresa italiana.
A baiana, que diz ser
evangélica, apresentou-me ao marido da melhor amiga dela. À noite, o sujeito
incorporou um Preto Velho que pediu para falar comigo. Assim começou minha
relação com a Umbanda.
Uma vez, outro preto
velho, Seu Cipriano das Encruzilhadas, me disse: “Filho, cê pensou porque cê
veio pra esse país? Tá no sangue, filho...”. Ele disse que a Umbanda está no
meu sangue, no sangue da minha esposa e da nossa filha, que já deu sinais
mediúnicos.
Eu não sei dizer se o
que estou lhe contando é ilusão ou verdade. Mas sei que sempre gostei de
escrever.
Tenho duas trilogias na
cabeça e um sétimo livro.
A primeira, em
italiano, vê: “Morti, amanti e funerali”, “Rio Negra” e “WWWWWWWWW”. “Trilogia del Passato”, costumo chamá-la. O primeiro livro o publiquei em 2011, na
Itália. Os outros dois estão prontos, no meu computador.
A segunda, em português,
vê: “Retratos na Umbanda”, já disponível, “O feiticeiro do Méier” e “As
incríveis aventuras de Zé Pelintra”. Intitula-se “Trilogia da Umbanda”. “O
feiticeiro do Méier” e “As incríveis aventuras de Zé Pelintra”, no momento, só
vivem em minha fantasia.
