Até a Maria gostou de "Retratos na Umbanda".
O vizinho adorou, a mulher que leva o cachorro pra praça disse que achou inovativo.
O padeiro ainda não teve tempo de ler, o açougueiro não gosta de literatura, o vendedor de livros velhos disse que a Umbanda não é a praia dele.
Mas a Maria gostou, o vizinhou adorou, o padeiro vai ler e o diretor de cinema disse que pode dar até um filme!
O padeiro, porém, agora disse que não leu e não vai ler.
E uma aluna evangélica, quando eu falei do livro, abandonou a sala.
Aí, a dona do curso veio até mim, pediu explicações e eu mostrei "Retratos na Umbanda".
O que é que é isso?, perguntou.
"Uma ficção, não é um livro religioso, fiz várias entrevistas, até faço parte de um Centro..."
A mulher me encarou. Eu a encarei.
Ficamos paralisados.
Estátuas.
Eu não consigo mexer.
Há três dias estou assim. Imóvel encarando uma mulher.
Mas ela foi embora. Deixou a fotografia e os certificados acadêmicos, na parede.
Quem puder, por favor, me tire daqui!
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
A maioria dos que leram "Retratos na Umbanda" e gostaram disseram que é um romance que induz a "pensar", porque os personagens são complexos, às vezes contraditórios, apesar de fazer parte de um Centro de Umbanda e de acreditar em Deus.
Curtindo a história você acaba conhecendo a Umbanda quase sem querer, disseram outros.
Estes gostaram do lado, digamos assim, "antropológico" do livro.
Outros disseram que é uma leitura agradável, apesar do grande numero de personagens que podem complicar um pouco no começo.
As primeiras trinta páginas, de fato, são interlocutórias. O leitor entende exatamente quem é quem a partir do segundo capitulo.
Eu estou gostando do retorno, principalmente do comentário de uma médium do Centro que disse: "É um livro cheio de verdades!" e da opinião de um jornaleiro de Copacabana, que decidiu vender "Retratos na Umbanda" na sua banca e me contou a história dos mendigos que moram nos becos e nas encruzilhadas entre a Toneleiro, Anita Garibaldi e o Bairro Peixoto.
Curtindo a história você acaba conhecendo a Umbanda quase sem querer, disseram outros.
Estes gostaram do lado, digamos assim, "antropológico" do livro.
Outros disseram que é uma leitura agradável, apesar do grande numero de personagens que podem complicar um pouco no começo.
As primeiras trinta páginas, de fato, são interlocutórias. O leitor entende exatamente quem é quem a partir do segundo capitulo.
Eu estou gostando do retorno, principalmente do comentário de uma médium do Centro que disse: "É um livro cheio de verdades!" e da opinião de um jornaleiro de Copacabana, que decidiu vender "Retratos na Umbanda" na sua banca e me contou a história dos mendigos que moram nos becos e nas encruzilhadas entre a Toneleiro, Anita Garibaldi e o Bairro Peixoto.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
O autor de "Retratos na Umbanda" com 17 anos fundou um conjunto punk rock (mais rock do que punk), em Milão.
Formou-se em Letras Modernas com 27 anos (durante a faculdade trabalhou como garçom, operário, professor e trancou a matricula duas vezes porque decidiu dedicar seis meses à leitura de Marcel Proust e mais três ao Ulisses de James Joyce - autores ausentes do curriculum da Statale de Milão).
Deixou seu país com 28 anos.
No Brasil trabalhou numa ONG na favela da Rocinha. A verdadeira formação desse sujeito foi entre os becos, as vielas, ajudando crianças carentes ou tentando ajudar crianças carentes.
Ele também dava aulas de italiano para os ricos de Ipanema.
Um dia ele passou a manhã numa casa na Roupa Suja na Rocinha que não tinha o vaso sanitário, mas um buraco que dava diretamente na vala de esgoto; a tarde ele foi trabalhar num apartamento de um conselheiro de um banco brasileiro, na Vieira Souto. Entre mordomo, serviçais e luvas brancas.
As contradições de Rio de Janeiro mexeram com ele numa forma que ele não entendeu de imediato.
Mas hoje ele sabe o que aconteceu. E sabe também que não vai se livrar desta cidade, nunca.
Formou-se em Letras Modernas com 27 anos (durante a faculdade trabalhou como garçom, operário, professor e trancou a matricula duas vezes porque decidiu dedicar seis meses à leitura de Marcel Proust e mais três ao Ulisses de James Joyce - autores ausentes do curriculum da Statale de Milão).
Deixou seu país com 28 anos.
No Brasil trabalhou numa ONG na favela da Rocinha. A verdadeira formação desse sujeito foi entre os becos, as vielas, ajudando crianças carentes ou tentando ajudar crianças carentes.
Ele também dava aulas de italiano para os ricos de Ipanema.
Um dia ele passou a manhã numa casa na Roupa Suja na Rocinha que não tinha o vaso sanitário, mas um buraco que dava diretamente na vala de esgoto; a tarde ele foi trabalhar num apartamento de um conselheiro de um banco brasileiro, na Vieira Souto. Entre mordomo, serviçais e luvas brancas.
As contradições de Rio de Janeiro mexeram com ele numa forma que ele não entendeu de imediato.
Mas hoje ele sabe o que aconteceu. E sabe também que não vai se livrar desta cidade, nunca.
Ontem dei a primeira aula do curso "A idade de ouro da
literatura italiana" e descobri mais uma vez como é bonito e
diferente ler a Divina Comédia, falar do 1.300... Sinto-me
muito mais seguro perto da Divina Comédia e no 1.300 do
que em pleno 2.013, em que se você quer ser um escritor
ou qualquer outra coisa, precisa cuidar não da tua alma, da
tua preparação, mas... da tua imagem!
literatura italiana" e descobri mais uma vez como é bonito e
diferente ler a Divina Comédia, falar do 1.300... Sinto-me
muito mais seguro perto da Divina Comédia e no 1.300 do
que em pleno 2.013, em que se você quer ser um escritor
ou qualquer outra coisa, precisa cuidar não da tua alma, da
tua preparação, mas... da tua imagem!
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Duas coisas:
- para escrever "Retratos na Umbanda" inspirei-me em "Tropa de Elite", o filme. Fiz uma atenta pesquisa e utilizei o material recolhido para criar uma obra de ficção. Ninguém no Brasil, até "Retratos na Umbanda", apresentou essa religião índio e afro descendente de uma forma tão "realística". "Retratos na Umbanda" não é um documentário, mas, como "Tropa de Elite", mostra a realidade como ela é.
- começando a escrever aquelas notas biográficas, tive sonhos horríveis que, noite após noite, estão desvendando à minha consciência o que aconteceu na creche trinta e cinco anos atrás. Pela primeira vez, durante a noite passada, eu "lembrei", em sonho, a sensação que tive quando criança. A angustia, a dor, o enorme sentimento de injustiça e reparei que as coisas não aconteceram exatamente na forma em que eu acreditava.
- para escrever "Retratos na Umbanda" inspirei-me em "Tropa de Elite", o filme. Fiz uma atenta pesquisa e utilizei o material recolhido para criar uma obra de ficção. Ninguém no Brasil, até "Retratos na Umbanda", apresentou essa religião índio e afro descendente de uma forma tão "realística". "Retratos na Umbanda" não é um documentário, mas, como "Tropa de Elite", mostra a realidade como ela é.
- começando a escrever aquelas notas biográficas, tive sonhos horríveis que, noite após noite, estão desvendando à minha consciência o que aconteceu na creche trinta e cinco anos atrás. Pela primeira vez, durante a noite passada, eu "lembrei", em sonho, a sensação que tive quando criança. A angustia, a dor, o enorme sentimento de injustiça e reparei que as coisas não aconteceram exatamente na forma em que eu acreditava.
sábado, 3 de agosto de 2013
Breve biografia do Autor (quarta parte)
Aurélio era um homem bom, de calça cinza e sandálias. Cozinhava peixe. O rosto ficava todo vermelho por causa da fumaça. Depois a família inteira comia junto. Ele era um cara sério, só ria quando falava das possíveis namoradas do neto, autor de "Retratos na Umbanda". Amava o neto de verdade. Dizia que um dia tornaria-se alguém. O autor beijava-lhe o rosto enrugado, o pescoço dele tinha os sinais de um cordão de ouro que o autor herdou e perdeu, bêbado, de noite, em Milão. Na verdade, ele não perdeu. Alguém roubou.
Pierina era a esposa de Aurelio. Foi o grande amor do autor. Mulher trabalhadeira. Boa, simples. Sempre falou em dialeto, até os últimos dias de vida. Ela adorava cozinhar, era uma artista da cozinha. Preparava a massa um dia antes, depois deixava repousar em cima dos armários onde a temperatura estava mais fresca. Às cinco da manhã pegava a massa e cortava. Começava a preparar o molho às sete e a família comia às treze. Suas especialidades eram os cannelloni, as abobrinhas fritas, as lasanhas. Enquanto a família almoçava, ela não ficava parada, servia a mesa. E não costumava comer muito. Mas gostava de doce. Aguardava o fim do almoço, pegava o recheado, comia um, dois. O autor olhava-a e ela, com a cara de uma menina de três anos, dizia: "Eu gosto muito...".
Pierina era a esposa de Aurelio. Foi o grande amor do autor. Mulher trabalhadeira. Boa, simples. Sempre falou em dialeto, até os últimos dias de vida. Ela adorava cozinhar, era uma artista da cozinha. Preparava a massa um dia antes, depois deixava repousar em cima dos armários onde a temperatura estava mais fresca. Às cinco da manhã pegava a massa e cortava. Começava a preparar o molho às sete e a família comia às treze. Suas especialidades eram os cannelloni, as abobrinhas fritas, as lasanhas. Enquanto a família almoçava, ela não ficava parada, servia a mesa. E não costumava comer muito. Mas gostava de doce. Aguardava o fim do almoço, pegava o recheado, comia um, dois. O autor olhava-a e ela, com a cara de uma menina de três anos, dizia: "Eu gosto muito...".
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