sábado, 3 de agosto de 2013

Breve biografia do Autor (quarta parte)

Aurélio era um homem bom, de calça cinza e sandálias. Cozinhava peixe. O rosto ficava todo vermelho por causa da fumaça. Depois a família inteira comia junto. Ele era um cara sério, só ria quando falava das possíveis namoradas do neto, autor de "Retratos na Umbanda". Amava o neto de verdade. Dizia que um dia tornaria-se alguém. O autor beijava-lhe o rosto enrugado, o pescoço dele tinha os sinais de um cordão de ouro que o autor herdou e perdeu, bêbado, de noite, em Milão. Na verdade, ele não perdeu. Alguém roubou. 
Pierina era a esposa de Aurelio. Foi o grande amor do autor. Mulher trabalhadeira. Boa, simples. Sempre falou em dialeto, até os últimos dias de vida. Ela adorava cozinhar, era uma artista da cozinha. Preparava a massa um dia antes, depois deixava repousar em cima dos armários onde a temperatura estava mais fresca. Às cinco da manhã pegava a massa e cortava. Começava a preparar o molho às sete e a família comia às treze. Suas especialidades eram os cannelloni, as abobrinhas fritas, as lasanhas. Enquanto a família almoçava, ela não ficava parada, servia a mesa. E não costumava comer muito. Mas gostava de doce. Aguardava o fim do almoço, pegava o recheado, comia um, dois. O autor olhava-a e ela, com a cara de uma menina de três anos, dizia: "Eu gosto muito...".   








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