terça-feira, 2 de julho de 2013

A primeira página do romance



Pai Francisco estava chateado com os médiuns, levavam a sério só o momento da incorporação. E o resto?
Pisou no segundo degrau da escada que o levaria ao térreo e depois ao estacionamento. O carro o esperava empoeirado, “Quando terei tempo de lavar ele?”.
O elevador não funcionava e isso acrescentou a sensação de fadiga e de impaciência. Queria se ocupar só do centro, cuidar do santo, das obrigações, mas... e o dinheiro? Quem lhe daria? Devia trabalhar, essa era a pura verdade. E não teria aposentadoria, isto é, poderia se aposentar com um salário mínimo. E a esposa? As filhas? As enteadas? Pelo menos ir ao parque no domingo, comer sanduíches sentados na grama, rezar em silêncio... Entrou no estacionamento e depois no carro. Tomou a direção do Centro e pensou que na manhã seguinte deveria levantar cedo para comprar a carne para a festa de Exu, sábado era dia de Exu e o intermediário, o semideus, gostava de churrasco. Isso significava uma passada no açougue, depois devia organizar a quitanda, averiguar, não podia confiar em ninguém. Quem verificaria se a alface estava boa? Quem contaria as caixas de leite? O entregador só aceitava reclamações na hora.
            Ele sabia que os médiuns participariam em quantidade mínima de sua palestra. De trinta, dez no máximo viriam.
            Estacionou em frente ao portão azul. Vestia bermuda marrom, uma camisa branca listrada, sandálias marrons. No pescoço um colar de ouro com uma pequena faca e uma figa. Tinha cabelos escuros, o rosto de um egípcio, o crânio africano era a parte evidente de sua fisionomia junto com os olhos profundos e uma espécie de brilho divertido, sarcástico, como o de um palhaço ou de um demônio. Ou de um santo. Os olhos de Francisco tinham presenciado pequenos e grandes milagres, esta era a impressão que davam e que deram ao Zé, que lhe abriu a porta do Centro Espírita Filhos de Xangô. 

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